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1ª Visita à Quinta do Cabrinha

  • 30 de mar. de 2019
  • 3 min de leitura

Atualizado: 16 de abr. de 2019


Quando chegámos à Quinta do Cabrinha, após observarmos durante uns minutos o que existia no bairro e as suas várias zonas, aproximámo-nos de umas senhoras que estavam sentadas num banco, perto do cabeleireiro. Elas mostraram-se disponíveis para conversar connosco e a partir daí tivemos uma agradável e esclarecedora conversa.


As três amigas começaram por nos dizer que vivem no Cabrinha desde que ele foi construído, em 1999, e que vieram as três do Casal Ventoso. Falaram-nos um pouco do seu bairro, de como é um sítio onde não se passa muita coisa, além da ocasional zaragata, “que até vamos à varanda ver”, e também de como há muitas crianças, que brincam na rua, jogam à bola e às apanhadas. Mas não demoraram muito a abrir o coração e a queixar-se do que se passava ali no bairro e a recordar as suas antigas casas no Casal Ventoso.







Queixam-se, antes que qualquer outra coisa, que a amizade que sentiam com os seus vizinhos no Casal Ventoso não existe ali. Não existe união entre os vizinhos. Queixam-se das rendas que passaram a ter de pagar, no caso delas, por casas com menos uma divisão. Falam ainda das confusões que por vezes existem no bairro, que às vezes impedem que saiam de casa e que as crianças vão brincar para a rua, mas afirmam que quem provoca esses incidentes são pessoas que foram para lá viver que não vieram do Casal Ventoso e que foram “misturados” com eles. Uma senhora afirma que a sua filha não a vai visitar a casa porque não gosta de ir ao bairro, apesar de antigamente a visitar no Casal Ventoso. Queixam-se ainda da discriminação que sofrem só por serem da Quinta do Cabrinha, de como as pessoas as tratam e julgam assim que afirmam ser dali.


Quando questionadas se gostam de ali viver afirmam “Que remédio a gente tem senão gostar”. Devido às altas rendas em Lisboa, e às suas dificuldades financeiras, ao relativo conforto que sentem por já conhecerem todos os vizinhos, e às dificuldades crescentes da idade, conformam-se com a vida que levam no Cabrinha. Quando se mudaram para o bairro, todos os habitantes do Casal Ventoso estavam entusiasmados e com vontade de trabalhar; hoje vivem em apatia, sem nada que fazer, tentando sobreviver com o pouco dinheiro que têm. Nos seus tempos livres, limitam-se a estar ali no bairro, no seu banco, a conversar, a “fofocar”, e dizem que não querem ir ao “centro de idosos”, como chamaram ao Projeto Alkantara, porque não têm paciência para ir jogar às cartas “com os velhos”. Por isso passeiam-se, conversam e vêem as novelas na televisão.


Por fim, depois de lhes dizermos o objetivo do nosso projeto, dizem-nos para não irmos à Quinta do Loureiro, outro dos bairros criados para o realojamento dos habitantes do Casal Ventoso. Um conselho pessoal que acho que se pode considerar atencioso e carinhoso, tendo em conta o perigo desse bairro.


A segunda conversa que tivemos no bairro foi num banco em frente ao Projeto Alkantara, onde um grupo de senhoras esperava que começasse a ginástica. Uma das senhoras não vive no bairro e vai lá para ir à ginástica, as outras viviam lá desde que o bairro foi construído. Uma das senhoras já se mudou para uma casa em segunda mão.


Estas idosas frequentam o Projeto Alkantara e já participaram em diversas atividades: ginástica, teatro, cantaram fado, fizeram trabalhos manuais, e jogam às cartas e ao dominó. Fazem também fisioterapia e têm acompanhamento médico. Mesmo gostando de ali viver, afirmam que gostavam era de onde nasceram, no Casal Ventoso, e lamentam o que lhe aconteceu e o seu estado nos últimos anos. Admitem que já não se podia lá morar. Mas não gostam mesmo de morar no Cabrinha, apesar da casa ser melhor. A união que se vivia no Casal Ventoso era diferente e havia muito apoio entre vizinhos. Quando se mudaram, separaram os vizinhos e deixaram de se falar. Foram todos separados e misturados entre “mau” e “bom”, tendo ficado as pessoas que se conheciam separadas. Já nem se juntam nos cafés. Há muitas crianças, e as raparigas são mães muito cedo.


Acabámos por ficar a conversar durante muito tempo com as senhoras, sobre a sua própria juventude, as diferenças entre o que se vivia antigamente e hoje em dia, sobre a sua educação e dos netos netos, que estão agora na faculdade, nos seus primeiros empregos e a ter filhos.


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