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2ª Visita ao Bairro

  • 31 de mar. de 2019
  • 8 min de leitura

Atualizado: 16 de abr. de 2019


1ª Conversa: Associação Crescer, Mariana Santos, 27 anos, psicóloga das equipas de rua


A Associação Crescer é uma associação de intervenção social que trabalha com pessoas em situação de sem-abrigo, com refugiados e pessoas que consomem substâncias psicoativas. Dentro destes públicos-alvo têm vários projetos, todos eles sob uma filosofia de redução de riscos e minimização de danos. Trabalham numa relação de proximidade com as pessoas, fazendo a ponte entre os serviços de saúde e serviços sociais e este público, muito rotulado e discriminado. Depois de estabelecer ligação com as pessoas, aí fazem algum tipo de intervenção, se elas quiserem.


A Crescer tem três equipas de rua, duas viradas para a área das dependências. Estas vão aos bairros de maior consumo e distribuem material antissético, para reduzir contágio de doenças infeto-contagiosas, e fazem o encaminhamento que seja necessário, quer seja para albergues para passar a noite, para tratamento, para consultas de saúde, documentos, etc. A terceira equipa de rua trabalha em zonas em que existem sem abrigos, mas em que podem ou não existir consumo, esta equipa faz o encaminhamento para albergues, quartos, casas, e depois acompanha-os. O objetivo é também tirar o máximo de pessoas da rua.


Têm também um espaço em Arroios em que pessoas em situação de sem-abrigo podem passar o dia, porque mesmo pessoas que passem a noite em albergues têm de sair até às nove da manhã. Lá têm acesso a roupas, snacks, internet e há lá uma psicóloga para fazer os encaminhamentos necessários.

Um dos seus projetos é a atribuição de casas a pessoas em situação crónica de sem-abrigo, se que existam grandes burocracias e condições como barreiras. Existe também um projeto semelhante dirigido a refugiados. Em qualquer das situações existe sempre um acompanhamento próximo caso a caso.


No início deste projeto, quando se mudaram para o bairro, este espaço funcionava como “drop-in”, onde as pessoas em situação de sem-abrigo passavam o dia, mas isso levantava alguns problemas com as pessoas do bairro. Mesmo depois de o espaço deixar de ser um “drop-in” a Crescer apoiava ali pessoas com consumo da zona de Alcântara, o que também não agradava os habitantes, agora neste espaço já não se faz troca de material, apenas vêm aqui utentes que precisem de medicação ou de alguma consulta. Em conjunto com a Câmara de Oeiras e a GEBALIS, fizeram um projeto com o bairro para pintar os prédios, limpar as ruas, colocar canteiros, etc. Hoje existe um ambiente apaziguador. No bairro também existirá tráfico e venda de drogas, mas por os utentes que esta instituição apoio serem mais vulneráveis, os habitantes do bairro rejeitam-nos, não querendo que o pessoal a quem vendem frequente o bairro, até por haver muitas crianças na rua.


A Mariana admite que, apesar do aspeto do bairro e de um receio inicial, se sente perfeitamente segura, vê que as pessoas a conhecem e que existe uma boa relação. Apesar da fama que o bairro poderá ter, não existem conflitos ou hostilidade diariamente.


O ponto mais negativo que aponta é a sujidade do bairro, afirma que a Câmara vem limpar mas não

assim tão frequentemente, e normalmente quando já está num estado muito mau.



2ª Conversa: Associação Crescer, Carolina


Ainda antes de começar o projeto em si, a ideia era criar um grupo de dez guardiões do bairro, que fizessem o elo de ligação entre os habitantes do bairro e a associação. A Carolina só entrou no projeto depois dessa primeira fase. Afirma que ao início foi difícil porque as pessoas do bairro são reservadas e resistentes a tudo o que é novo, mas ao longo do tempo começaram a aderir às atividades da associação, incluindo os jovens. Este projeto (CultivArte) com o bairro já não está a acontecer. A Carolina ainda hoje se cruza com pessoas com quem esteve no âmbito deste projeto e fala com elas. Um dos objetivos do projeto CulivArte era embelezar o bairro, criar união e eliminar o estigma que existe em relação às pessoas do bairro, tendo publicado fotografias em jornais e nas redes sociais. Os bancos e os canteiros que existem foram postos no âmbito deste projeto.


Uma das ajudas que podem ser procuradas no espaço da Crescer é a ajuda na procura de emprego, e aí muitas pessoas do bairro procuram a associação.


Também aponta como grande problema a sujidade da rua. Já fizeram diversas ações de limpeza, de vacinação de animais, contactaram a Câmara para que fosse resolvido. Quando esteve a fazer o projeto, o que os habitantes lhe disseram foi que, enquanto que num contexto de bairro é normal as pessoas se associarem muito umas às outras, aqui isso não é verdade.

Afirma ainda que as crianças brincam muito na rua, e há muita segurança para elas brincarem na rua.



3ª Conversa: Bens Doados / EntrAjuda


A EntrAjuda existe desde 2004 e está ligado ao Banco Alimentar, surge quando o Banco Alimentar se apercebe que dar alimentos às instituições solidárias não chegava, era necessário que as instituições estivessem mais bem organizadas e que fossem mais bem geridas para que com poucos recursos pudessem chegar mais longe. Tanto o Banco Alimentar como os Bens Doados não trabalham diretamente com as pessoas, o que fazem é trabalhar com instituições de solidariedade.


O objetivo principal foi ajudar a gerir as instituições e dar formação e conhecimento. Entretanto a EntrAjuda cresceu ao ponto de perceber que havia outras necessidades e começar a recolher bens que não fossem alimentos, desde mobiliário, a computadores, a material escolar, uma vez que o Banco Alimentar não pode recolher esses bens. Deixou de poder estar no escritório anexo ao Banco Alimentar onde se encontrava e mudou-se para a Quinta do Cabrinha. A EntrAjuda atua agora em três áreas diferentes: a formação, em que trabalham junto das instituições, a recolha e distribuição de bens não alimentares, pelas instituições, e a promoção do voluntariado em Portugal.


Sempre experienciou um bom relacionamento com a comunidade, nunca tiveram nenhum problema, assistem, no entanto, a problemas entre as pessoas do bairro. Duas vezes por ano existe a recolha de bens e aí têm de ter cuidado para tentar não incomodar a comunidade.



4ª Conversa: Projeto Alkantara


Quando nos dirigimos ao centro de convívio do Projecto Alkantara na Quinta do Cabrinha tivemos a oportunidade de falar com a vice-presidente do projeto, Drª Patrícia Costa.

Após lhe explicarmos em que consistia o nosso projeto, pedimos que nos falasse sobre os projetos que a associação desenvolve com a comunidade. O Projecto Alkantara está presente na Quinta do Cabrinha desde que esta abriu as portas, há 20 anos atrás. Este ano terminaram os projetos “Memórias do Casal Ventoso” e “Fazer a Ponte E6G”, que estão a ser renovados e estão a iniciar os projetos “Casal Ventoso Sempre” e “Fazer a Ponte E7G”.


Quando a questionamos sobre o Relatório de Atividades de 2017, no qual tínhamos verificado a dificuldade da pouca adesão da comunidade, a Drª Patrícia Costa confirmou que esta dificuldade se mantém.


Relativamente aos projetos com faixas etárias mais novas, os jovens dos 6 aos 10 são os que mais aderem; dos 11 aos 18 já não são tão participativos. O Projecto está em fase de averiguação do porquê dessa não adesão, uma vez que esta faixa etária correspondia ao grosso do trabalho deles.

Ao trabalhar com os mais novos, acompanham-os no estudo, fazem atividades lúdicas e organizam “projetos de vida” (isto não é exclusivo às crianças, os projetos de vida são feitos com todos os participantes do projeto). Para ser mais fácil para os mais novos, os projetos de vida são mais direcionados para a vida escolar.


Em termos de participação dos mais velhos este bairro é o que tem menos aderência. As pessoas da comunidade vêm muito pouco ou e muitas vezes vêm, fazem a atividade específica e depois vão se embora, o que para a associação é mau, pois embora sejam utentes não ficam a conviver, o que é o principal objetivo do espaço de convívio. Há pessoas que frequentam a associação que têm conflitos com outras pessoas “do exterior”, o que faz com que automaticamente essas pessoas não venham para o centro.


A vice presidente conta-nos também que foi criada uma associação de moradores do bairro, onde estes se reúnem e tentam discutir os problemas da comunidade e do bairro. Aos poucos a associação tenta que a comunidade trabalhe para e por si própria, mas mesmo assim não são muito participativos quando chega a altura de efetivamente agir.


Uma das situações específicas de que nos falou foi a da garagem, que esta estava num estado lastimável, mas os moradores, juntamente com a GEBALIS (a entidade reguladora do bairro) organizaram-se para a limparem. No bairro em si também há problemas com a limpeza, mas aí cabe à Junta de Freguesia de Alcântara certificar-se da sua manutenção. Quando chove, as grades da chuva entopem, o que cria mini inundações. Apesar dos esforços da limpeza antes da altura das chuvas, continua a haver um problema com os escoamentos da água desde a criação do bairro.

Relativamente ao financiamento da associação, ficamos a saber que trabalham muito com fundos vindos da Comunidade Europeia e como se têm que candidatar para receber esses financiamentos é sempre muito incerto quando e até se os vão receber.


A Drª Patrícia conta-nos que o bairro já teve dois clubes de futebol e, ao contrário do que se pensa, um deles continua ativo, o Clube Desportivo Santo António de Lisboa. Tiveram que terminar com o escalão dos juniores porque havia muitos conflitos e quem estava na organização desistiu, mas os seniores continuam a funcionar.


Não treinam no bairro porque o campo que têm é muito pequeno, então treinam num outro campo em Alcântara. O presidente do clube também é neste momento jogador.

O centro de convívio vai organizando várias atividades semanais direcionadas para a população mais sénior mas, como já se tinha referido, a população não adere assim tanto, vai variando consoante o tempo. Em dias de chuva não aparece ninguém mas em dias de sol as pessoas já aparecem mais. A adesão também vai variando de atividade para atividade.


O centro conta com a colaboração dos estudantes de fisioterapia da Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, que funciona junto ao bairro. Estes voluntários procuram fazer atividades muito diferentes e variadas com os utentes, que envolvam até os afazeres do seu dia a dia, mas sempre vocacionadas para a fisioterapia.


Para além disso, o centro também tem atividades lúdicas, como por exemplo trabalhos manuais. Recentemente os utentes realizaram uma atividade muito interessante que consistia em andar pelo bairro com uma câmara fotográfica a registar o que achavam que estava mal e as zonas onde sentem mais dificuldades (por exemplo, de locomoção).


Todos os residentes e trabalhadores da Quinta do Cabrinha sabem que o maior problema são os elevadores dos edifícios. Estão sempre avariados e a associação tem utentes com mobilidade reduzida que moram nos andares superiores e não conseguem descer as escadas dos prédios. Foi-nos falado de uma exemplo específico de uma criança que está numa cadeira de rodas e que para ela poder ir à escola tem que se juntar um grupo de pessoas todos os dias para a levar escadas abaixo. A GEBALIS e a Câmara Municipal já sabem do problema mas é uma situação muito complicada; no dia a seguir ao arranjo os elevadores já estão avariados outra vez e ainda não se percebeu bem como avariam tão frequentemente.


Ao terminar a nossa conversa, a vice presidente do Projecto Alkantara diz-nos que o bairro está a sofrer obras de reabilitação, sendo um dos objetivos a existência de um novo isolamento térmico, pois a construção antiga e mesmo a arquitetura do próprio bairro não permite a entrada da luz solar, o que o torna bastante frio. Estão também a re-estruturar os telhados de forma a haver uma maior eficiência energética nas casas, vão mudar as lâmpadas dos prédios para LEDs, pintar o bairro e arranjar o piso.




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